A revista da Gol distribuída no vôos da Companhia destaca a il Sordo, com fotos maravilhosas dos nossos colaboradores e texto com a história empreendedora do fundador Breno Nunes. Você não pode deixar de ler.
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Breno Nunes, da il Sordo
inclusão: agora é minha vez
Por Karina Sérgio Gomes
Fotos Nino Andrés
Novos negócios comandados por empreendedores com Down e outras condições mostram que já nasceram inclusivos e entenderam a importância da diversidade no mercado de trabalho
Fotos: Christian de Andrade Freitas, atendente da gelateria Il Sordo e Larissa Souza Morais, do Bellatucci Café
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Quando era criança, Jéssica Pereira já mostrava talento na cozinha. Com a ajuda dos familiares, preparava pratos como panqueca, nhoque de mandioquinha, quiches e tortas. Mas, por ter síndrome de Down, não encontrava oportunidades de levar suas habilidades culinárias para fora de casa. Como queria trabalhar, chegou a ser atendente em uma farmácia, fez curso de cabeleireira e até recebeu um convite para ser assistente na rede Jacques Janine. No entanto, com sua vo- cação para a cozinha, ela foi se encontrar mesmo no curso do instituto Chefs Especiais, uma escola de gastronomia fundada em 2006 para portadores da síndrome e que também emprega seus alunos no Chefs Especiais Café, cafeteria no bairro dos Jardins, em São Paulo, criada em 2017.
De olho no talento de Jéssica, sua irmã Priscila Della Bella, e o marido, Douglas Batetucci, resolveram investir nela: pegaram o dinheiro destinado a comprar um apartamento e montaram o Café Bellatucci, na capital paulista. A cozinha é capitaneada por Jéssica, hoje com 27 anos. Há dois anos funcionando, o café é também um espaço de inclusão, onde acontecem treinamentos para quem tem Down e autismo – atualmente, quatro funcionários com a síndrome e um autista trabalham lá. Eles se revezam no atendimento e aprendem a fazer café. “Fico muito feliz em poder empregá-los aqui”, diz Jéssica. Hoje, o Bellatucci abre de segunda a sexta, das 9 horas às 18 horas, e – outra conquista importante – realiza coffee breaks para eventos de empresas como Votorantim e Liberty Seguros. A chef ainda quer ir além: está terminando o ensino médio para poder fazer faculdade de gastronomia, o que pode representar mais um desafio em sua trajetória. De acordo com a organização Movimento Down, iniciativa da Movimento de Ação e Inovação Social (MAIS), que tem como objetivo produzir e disseminar informações e orientações sobre a síndrome de Down, apenas 40 das 300 mil pessoas com Down hoje no Brasil estão nas universidades.
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Se o ensino superior ainda é uma barreira a ser superada,
iniciativas como a de Jéssica permitem que o cenário comece a se transformar. Embora o número de pessoas com defici- ência no mercado de trabalho ainda seja muito baixo – se- gundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24% dos brasileiros possuem algum tipo de deficiência e, conforme os dados de 2016 da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), apenas 1% dessa população está empregada –, houve um crescimento de 5,5% no número de trabalha- dores deficientes que conseguiram um emprego formal entre 2016 e 2017, de acordo com um relatório do Ministério do Trabalho divulgado no ano passado. O maior aumento foi entre pessoas cegas, de 16,3%, seguido pelo grupo das pessoas com deficiência intelectual, 7,5%.
Legislações que olham para a importância da inclusão também incentivam esse crescimento, como a lei no 8.213, de 1991, que obriga todas as empresas brasileiras com mais de cem funcionários a terem de 2% a 5% das vagas preenchidas por pessoas com deficiência. Para se enquadrarem nas regras, muitas lançam programas específicos – e tantas outras vão além. A rede de farmácias Raia Drogasil criou o Lado a Lado, desenvolvido não apenas para cumprir a lei, mas também para aprimorar a própria cultura da empresa. Hoje, a rede tem cerca de 40 pessoas com Down trabalhando nas lojas em áreas como atendimento ao público e reposição de mercadoria.
E a tendência é que empreendimentos de sucesso inspi- rem outros projetos inclusivos. Caso da Cafeteria Especial, em Blumenau, Santa Catarina, onde todos os atendentes são portadores de Down. O negócio foi criado em 2018 pelo gestor de recursos humanos Giorgio Sinestri, também moti- vado pelo trabalho realizado pelo instituto Chefs Especiais. “Queríamos desenvolver algo que não fosse puramente assistencialista”, conta Giorgio. Hoje, o espaço emprega quatro atendentes, todos contratados em regime CLT por meio período. Para Leandro Garcia, 27, que, em dezembro do ano passado, conseguiu seu primeiro emprego como aten- dente no café, a experiência está sendo fundamental para explorar seus talentos e desenvolver sua autonomia. “Com o emprego, eu me sinto uma pessoa mais responsável”, diz ele. “E, se eu precisar de alguma coisa, não tenho que ficar pedindo dinheiro para minha mãe.” O apoio dos pais, aliás, é uma parte importante, conta Giorgio, já que muitos tinham resistência em deixar os filhos trabalharem. Aos poucos, os sócios foram conquistando a confiança deles, mostrando que aquele era um ambiente de trabalho adequado para portadores de Down. “A gente sabia que treiná-los levaria mais tempo. Como alguns não sabem ler, toda comunicação da comanda é por cor. Estamos também investindo em aulas de teatro para eles aprenderem a se comunicar melhor”, explica o empresário.
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Ainda que os esforços de adaptação para incluir pessoas
com deficiência – intelectuais ou físicas – sejam sinônimo de um custo maior para as empresas, muitas já se estrutu- ram para atuar no mercado de forma mais humana. Caso da rede de cafeterias Starbucks, que, no ano passado, abriu em Washington uma loja com comunicação 100% em linguagem de sinais. Todos os funcionários falam a língua de sinais americana (ASL), sejam eles surdos ou não. E, se um cliente não souber a ASL, os pedidos podem ser feitos em um tablet.
Algo similar acontece na gelateria Il Sordo, em Aracaju, fun- dada pelo empresário Breno Nunes, 25. Lá, onde a maioria dos funcionários é surda, assim como o dono, ninguém precisa saber Libras para pedir sorvete. De acordo com ele, são cerca de 5 mil clientes atendidos todos os meses que conseguem se comunicar com os atendentes por meio de gestos e mímicas, apontando o sabor, se preferem casquinha ou copinho, e mostrando, nos dedos, quantas bolas querem. “Tenho muitos amigos surdos e eles tinham dificuldade de entrar no mercado de trabalho. Então, decidi contratá-los. Acredito na capacidade deles”, conta.
A ideia de montar a sorveteria surgiu depois que Breno ficou desempregado, em 2015. Na busca por um novo propósito, ele, que dava aula de Libras, viajou para São Paulo para fazer um curso de paletas mexicanas e gelato. As gelaterias ainda não eram uma moda em Aracaju, e o empreendedor percebeu que esse seria o diferencial do seu negócio. O pai fez o investimento inicial para a compra de uma máquina italiana para fabricação dos gelatos. E Breno se apaixonou pelo ofício: abriu a primeira loja, em modelo experimental com apenas um funcionário, em 2016. Com o sucesso, no ano seguinte foram para uma loja maior, com cinco funcionários – hoje são dez.
A visão e a paixão, porém, não foram suficientes para con- vencer, em 2018, os jurados do Shark tank, reality show do canal Sony, em que empreendedores apresentam suas ideias de negócio a potenciais investidores. Ainda que rentável e com boa perspectiva de crescimento, Breno não conseguiu o aporte de R$ 280 mil para montar a segunda loja. O jogo, no entanto, virou: com os lucros da primeira loja e mais um investimento familiar, o negócio cresceu. Hoje, são três lojas, sendo uma matriz e duas franquias, e mais um ponto de venda em andamento – todos com a maioria de funcionários surdos. A participação no programa ajudou a divulgar a Il Sordo e Breno recebeu contato de vários estados brasileiros, mas, por enquanto, prefere focar no crescimento local para ganhar força.
Mesmo sem conquistar investidores externos, para o empresário a métrica do sucesso é conseguir mostrar que o atendi- mento pelos surdos funciona, já que, em todos os pontos de venda, são eles os responsáveis pelo contato com o público. De acordo com a professora de economia e pesquisadora do Insper Regina Madalozzo, a dificuldade de Breno existe porque não há ainda um precedente de empreendedores deficientes no mercado. “O investidor pode ter receio de injetar dinheiro em um modelo de gestão ainda desconhecido para ele. Com isso, todos saem perdendo, porque um grupo de trabalho diverso ajuda na criatividade da equipe”, diz. Vários dados comprovam que a inclusão da diversidade é benéfica para os negócios – um levantamento da consultoria Deloite Australia, por exemplo, mostra que equipes inclusivas superam as que têm perfis mais homogêneos em 80% das avaliações. Para Anna Cherubina, professora de recursos humanos e mentora de carreiras da Fundação Getúlio Vargas, a grande importância de negócios que favorecem trabalhadores com deficiência é tirá-los da exclusão e dar visibilidade a eles. “Assim, as pessoas passam a enxergar, de verdade, quem é diferente delas e ficam menos na defensiva, o que as torna mais empáticas”, conclui.